O crescimento traz mudanças importantes para todas as crianças. Na paralisia cerebral,
especialmente nos níveis IV e V do GMFCS, essas mudanças podem aumentar as
dificuldades para sustentar a cabeça e o tronco, sentar, mudar de posição e manter o
alinhamento dos quadris e da coluna.
Por isso, o acompanhamento deve acontecer ao longo de toda a infância e adolescência. O
objetivo não é buscar uma postura “perfeita”, mas prevenir alterações secundárias, oferecer
conforto e favorecer movimentos, interação e participação.
O que é o GMFCS?
GMFCS é a sigla em inglês para Sistema de Classificação da Função Motora Grossa. Ele descreve como crianças e adolescentes com paralisia cerebral se sentam, mudam de posição e se locomovem no dia a dia.
O sistema possui cinco níveis. Quanto maior o nível, maior costuma ser a necessidade de apoio para mobilidade e posicionamento.
É importante lembrar: o GMFCS não é um diagnóstico e não avalia inteligência, comunicação, afeto ou capacidade de aprender. A classificação descreve apenas a função motora grossa habitual da criança, conforme explica o CanChild, instituição responsável pelo desenvolvimento do sistema.
O que caracteriza os níveis IV e V?
GMFCS IV
A criança geralmente precisa de apoio para sentar, mudar de posição e se deslocar. Pode utilizar cadeira de rodas conduzida por outra pessoa ou mobilidade motorizada e, em algumas situações, ficar em pé ou dar passos com equipamentos e assistência.
Também pode apresentar dificuldade para manter a cabeça e o tronco alinhados por períodos prolongados.
GMFCS V
A criança costuma precisar de suporte mais amplo para sustentar a cabeça e o tronco, sentar, realizar transferências e se locomover. Geralmente utiliza cadeira de rodas adaptada e depende da ajuda de outra pessoa para mudar de posição.
Mesmo com grande dependência motora, ela pode participar por meio do olhar, de expressões faciais, vocalizações, gestos, acionadores ou comunicação alternativa.
Dependência motora não significa ausência de participação.
Por que o crescimento exige mais atenção?
A lesão cerebral que causou a paralisia cerebral não é progressiva. Porém, o corpo cresce e pode desenvolver alterações secundárias.
Os ossos aumentam de tamanho, enquanto músculos com espasticidade, distonia, rigidez, fraqueza ou pouca ativação podem não acompanhar esse crescimento da mesma forma.
Com o tempo, isso pode contribuir para:
- encurtamentos e contraturas;
- perda de amplitude de movimento;
- desalinhamento dos quadris e dos membros inferiores;
- inclinação ou rotação da pelve;
- escoliose e outras assimetrias do tronco;
- maior dificuldade para sentar, usar as mãos e participar.
Estudos mostram que crianças dos níveis IV e V podem apresentar maior risco de redução de algumas habilidades motoras durante a adolescência. Isso reforça a importância de acompanhar a função e adaptar os recursos conforme a criança cresce (Hanna et al., 2009).
Principais cuidados motores durante o crescimento
1. Acompanhar os quadris
Crianças dos níveis IV e V apresentam maior risco de deslocamento do quadril. Essa alteração pode começar sem sinais visíveis e até mesmo sem dor.
Um estudo encontrou deslocamento do quadril em até 90% dos participantes classificados no GMFCS V. Isso não significa que todas as crianças desse nível terão luxação, mas demonstra a importância da vigilância (Soo et al., 2006).
A avaliação pode incluir exame clínico, medida da abertura das pernas e radiografia da pelve.
A AACPDM recomenda iniciar essa vigilância por volta dos 2 anos, quando há diagnóstico ou suspeita de paralisia cerebral. A frequência depende da idade, do nível do GMFCS e dos resultados anteriores.
Alguns sinais que merecem atenção são:
- diminuição da abertura das pernas;
- aumento da rotação interna ou externa dos quadris;
- dificuldade para alinhar pés e joelhos;
- pelve inclinada;
- apoio frequente sobre o mesmo lado;
- maior dificuldade para sentar, vestir ou realizar a higiene.
Órteses, fisioterapia e recursos de posicionamento podem ajudar na organização dos membros inferiores, mas não substituem radiografias e acompanhamento ortopédico.
2. Observar a coluna e o tronco
Durante o crescimento, podem surgir ou aumentar alterações como escoliose, rotação do tronco, hipercifose e obliquidade pélvica.
Em um estudo com 666 crianças e adolescentes com paralisia cerebral, aquelas nos níveis IV e V apresentaram risco de aproximadamente 50% de desenvolver escoliose moderada ou grave até os 18 anos (Persson-Bunke et al., 2012).
Observe se a criança apresenta:
- um ombro mais alto que o outro;
- inclinação ou rotação do tronco;
- queda frequente para frente ou para um lado;
- pelve inclinada;
- necessidade constante de reposicionamento;
- dificuldade crescente para sentar ou usar as mãos.
O acompanhamento deve considerar a postura sentada, deitada, em pé, durante as transferências e nas atividades do dia a dia.
3. Prevenir encurtamentos e contraturas
A redução dos movimentos ativos, associada à espasticidade, distonia ou fraqueza muscular, pode favorecer encurtamentos e contraturas.
As alterações aparecem com maior frequência nos quadris, joelhos, tornozelos, cotovelos, punhos, mãos e polegares.
A família pode perceber que ficou mais difícil:
- abrir as pernas;
- estender os joelhos;
- posicionar os pés;
- vestir a criança;
- colocar uma órtese que antes servia bem.
O plano de cuidado pode incluir:
- mudanças frequentes de posição;
- atividades motoras ativas e prazerosas;
- alongamentos orientados;
- posicionamento sentado, deitado e em pé;
- oportunidades seguras de apoio de peso;
- órteses para membros superiores ou inferiores;
- revisão periódica dos equipamentos.
O objetivo é oferecer suporte sem imobilizar desnecessariamente, preservando movimento e participação.
4. Favorecer o controle da cabeça, o uso das mãos e a participação
Quando a criança utiliza grande parte do esforço apenas para sustentar a cabeça e não cair, sobra menos disponibilidade motora para olhar, brincar, alcançar objetos e usar as mãos.
Uma base mais estável para cabeça, tronco e pelve pode facilitar:
- o direcionamento do olhar;
- o contato com pessoas e objetos;
- o alcance de brinquedos;
- o uso funcional das mãos;
- o acesso à comunicação alternativa;
- a participação nas atividades escolares e familiares.
O cuidado postural não deve buscar somente uma aparência alinhada. O principal objetivo é oferecer uma posição confortável e funcional, na qual a criança consiga interagir e participar.
Como os produtos Amigo Panda podem ajudar?
Os produtos terapêuticos podem complementar o plano de cuidado quando existe uma indicação individualizada. Eles não substituem fisioterapia, terapia ocupacional, equipamentos de posicionamento, acompanhamento médico ou vigilância ortopédica.
A escolha deve considerar o tônus, o padrão postural, os objetivos funcionais e a resposta de cada criança.

O Body Panda BTP é uma órtese dinâmica com malha compressiva, hastes semirrígidas e tração posterior. Pode ser indicado para crianças com hipotonia ou aumento do tônus em padrão flexor, favorecendo:
- estabilidade postural;
- alinhamento do tronco;
- organização corporal;
- uma base mais estável para o uso dos braços;
- participação nas brincadeiras e atividades diárias.

O Body Panda BTA possui tração anterior e pode ser indicado quando existe hipertonia extensora ou tendência a projetar o tronco para trás.
A escolha entre BTP e BTA deve considerar o padrão postural individual, e não somente o diagnóstico ou o nível do GMFCS.

O Body Panda de Rotação 3D permite modular forças no tronco e nos membros inferiores.
Pode ser considerado quando há instabilidade do tronco associada à rotação das pernas, obliquidade da pelve ou escoliose neuromuscular flexível e manipulável.
O recurso pode favorecer:
- organização tridimensional do tronco;
- suporte para flexão ou extensão, conforme a necessidade;
- atuação sobre a rotação do tronco;
- organização da pelve;
- controle da rotação dos membros inferiores;
- melhor posicionamento durante atividades funcionais.
A indicação e a direção das trações devem ser definidas por um profissional.

Quando existe dificuldade para sustentar a cabeça, o Colar Cervical Amigo Panda pode oferecer suporte funcional, preservando parte da mobilidade necessária para olhar, interagir e participar.
O alinhamento da cabeça pode favorecer:
- o direcionamento do olhar;
- a interação com outras pessoas;
- o acesso à comunicação;
- o uso funcional das mãos;
- a participação nas atividades diárias.
O ajuste deve ser individualizado. O colar não pode causar pressão, desconforto, dificuldade respiratória ou limitação excessiva dos movimentos.

A Bermuda Panda pode auxiliar na organização da pelve e dos membros inferiores, especialmente quando há:
- base de apoio alargada;
- abdução excessiva dos quadris;
- rotação externa dos membros inferiores;
- dificuldade para manter as pernas mais organizadas durante a postura sentada.
Talas extensoras, abdutor de polegar e outros recursos também podem favorecer alinhamento, posicionamento funcional e manutenção da amplitude de movimento, conforme os objetivos definidos pela equipe.
Esses produtos não substituem a vigilância dos quadris nem impedem sozinhos o desenvolvimento de contraturas ou deformidades.
Antes e durante o uso de um recurso
Antes de escolher um produto, família e profissional devem responder a uma pergunta simples:
O que queremos favorecer com esse recurso?
O objetivo pode ser sustentar a cabeça, melhorar a estabilidade ao sentar, organizar a pelve, facilitar o uso das mãos ou aumentar a participação.
Durante o uso, observe:
- conforto e tolerância;
- respiração;
- presença de marcas na pele;
- mudanças no tônus;
- facilidade para se movimentar;
- qualidade da postura;
- participação na atividade.
Como o corpo cresce, medidas, ajustes e objetivos precisam ser revistos periodicamente.
Sinais motores que pedem uma nova avaliação
Procure a equipe que acompanha a criança quando houver:
- perda de uma habilidade que ela já realizava;
- dificuldade crescente para sentar;
- redução da abertura das pernas;
- aumento rápido da inclinação ou rotação do tronco;
- maior rigidez nos braços ou nas pernas;
- dificuldade para colocar órteses ou roupas;
- equipamento que ficou pequeno ou passou a causar marcas;
- mudança importante na posição da cabeça, da pelve ou dos membros.
Crescer com apoio também é crescer com oportunidades
Nos níveis IV e V do GMFCS, acompanhar quadris, coluna, músculos, articulações e controle cervical ajuda a identificar mudanças antes que elas interfiram ainda mais na função.
Produtos de apoio, terapias e adaptações podem contribuir quando possuem objetivos claros, são indicados por profissionais e acompanham o crescimento da criança.
Mais do que buscar uma postura perfeita, o cuidado deve favorecer uma postura confortável, segura e funcional, que permita brincar, aprender, comunicar-se e participar.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação médica, fisioterapêutica ou de terapia ocupacional.
Referências
- Gross Motor Function Classification System – Expanded & Revised.
- Hanna SE et al. Stability and decline in gross motor function among children and youth with cerebral palsy aged 2 to 21 years. Developmental Medicine & Child Neurology, 2009.
- Soo B et al. Hip displacement in cerebral palsy. Journal of Bone and Joint Surgery, 2006.
- Persson-Bunke M et al. Scoliosis in a total population of children with cerebral palsy. Spine, 2012.
- American Academy for Cerebral Palsy and Developmental Medicine. Hip Surveillance in Cerebral Palsy Care Pathway.


















